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Assemblagens

Conservando sua memória, as madeiras, os plásticos e a areia se expressam.

Autorretrato — Vidro, espelho, areia, tinta a óleo — Arnaud Caron (Artno)

Autorretrato

O retrato se reflete no espelho
MateriaisVidro, espelho, areia, tinta a óleo
Dimensões40 × 30 × 40 cm

O artista não busca a semelhança física: ele constrói sua identidade por meio da matéria, da cor e da montagem. O rosto se torna, assim, menos a representação de um indivíduo do que a de um estado interior. A sobreposição dos dois rostos pode evocar as diferentes camadas da identidade: o rosto que mostramos e o que escondemos, a aparência e a interioridade, o consciente e o inconsciente.

A obra não busca responder à pergunta “Com o que eu me pareço?”, mas sim a uma questão mais profunda: “O que se esconde por trás da imagem que dou de mim mesmo?” Ela apresenta a identidade como uma construção complexa, feita de camadas sucessivas, contradições, feridas e memória. Conhecer-se exige escavar a matéria.

Anoftalmia — Madeira — Arnaud Caron (Artno)

Anoftalmia

MateriaisMadeira
Dimensões60 × 40 cm
TipoMóbile

A obra se constrói em torno da ausência do olhar, direcionando de imediato a leitura dessa assemblagem para a percepção, a cegueira e, mais amplamente, nossa capacidade — ou nossa recusa — de ver. A figura cega também encarna uma sociedade que segue em frente permanecendo incapaz de encarar certas realidades.

Paradoxalmente, ao suprimir os olhos de sua figura, a obra solicita ainda mais os do espectador. A ausência se torna, então, um convite a olhar de outra maneira.

Mortalha — Madeira, tecido, tinta acrílica e areia misturados — Arnaud Caron (Artno)

Mortalha

MateriaisMadeira, tecido, tinta acrílica e areia misturados
Dimensões80 × 65 cm

«Mortalha» se apresenta como uma figura quase totêmica cujo tecido recobre o corpo, deixando subsistir o rosto, como um último traço de identidade diante do desaparecimento. Não se trata mais necessariamente de um indivíduo, mas de uma representação simbólica do homem diante de sua própria finitude.

A obra pode assim ser interpretada como uma reflexão sobre a morte, mas também sobre o que permanece depois dela. O corpo desaparece, a matéria se degrada, mas algo do ser ainda resiste ao apagamento.

Guerra e Paz — Madeira — Arnaud Caron (Artno)

Guerra e Paz

MateriaisMadeira
Dimensões180 × 80 cm

Apesar das marcas do tempo, a obra ainda se mantém de pé e evoca uma humanidade atravessada por oposições. Instável, ela afirma que a paz nunca é definitivamente conquistada e que permanece constantemente ameaçada. Torna-se, assim, uma metáfora da humanidade: frágil, ferida por sua história, mas capaz de permanecer de pé e continuar acreditando na paz.

Reconstruir não significa apagar os vestígios do passado, mas conseguir criar um novo equilíbrio a partir do que foi quebrado.

Nem Deus Nem Senhor — Madeira, spray — Arnaud Caron (Artno)

Nem Deus Nem Senhor

MateriaisMadeira, spray
Dimensões200 × 400 cm

As figuras humanas se veem confrontadas com estruturas que buscam enquadrá-las, dirigi-las ou dominá-las. A obra convida, assim, a uma reflexão sobre a recusa de toda autoridade absoluta, seja ela espiritual, política ou social.

Ela não representa apenas a revolta: evoca, sobretudo, a vontade de construir a própria existência fora dos quadros impostos. Ser livre significa, então, sair do quadro, recusar as hierarquias estabelecidas e tornar-se seu próprio senhor.

Os Pescadores — Madeira, linha — Arnaud Caron (Artno)

Os Pescadores

MateriaisMadeira, linha
Dimensões120 × 80 cm
TipoMóbile

«Os Pescadores» evoca o mundo marítimo. As formas geométricas suspensas representam as velas dos barcos. Concebida como um móbile, a obra as põe em movimento sob a ação do vento, evocando barcos que navegam. As madeiras utilizadas vêm de antigos barcos de pesca. Não são, portanto, simples materiais de recuperação: carregam em si a memória do mar e dos pescadores que outrora as usaram. Transformados, esses fragmentos prosseguem simbolicamente sua viagem.

A obra estabelece, assim, um diálogo entre memória e movimento. Novamente levadas pelo vento, as antigas embarcações reencontram simbolicamente o mar e continuam a navegar sob outra forma.

Ladrão de Sol — Madeira, plásticos, linha de pesca, tinta acrílica e areia misturados — Arnaud Caron (Artno)

Ladrão de Sol

MateriaisMadeira, plásticos, linha de pesca, tinta acrílica e areia misturados
Dimensões95 × 75 cm

O personagem não busca roubar o sol por inteiro: ele retira uma parte e a toma para si. O sol se torna, então, o símbolo de uma riqueza natural que o homem considera disponível, explorável e divisível, mesmo sendo indispensável à sua existência.

Surge um paradoxo: o ladrão se sustenta justamente sobre aquilo que ele saqueia. Seu equilíbrio e sua sobrevivência dependem dessa fonte, que ele fragmenta progressivamente para satisfazer seu desejo de posse.

A obra se torna, assim, uma metáfora de nossa relação contraditória com a terra: extraímos daquilo que nos faz viver, correndo o risco de destruir pouco a pouco o que nos sustenta.

Arcanjo — Madeira, cipó, pedra — Arnaud Caron (Artno)

Arcanjo

MateriaisMadeira, cipó, pedra
Dimensões180 × 50 cm

A obra brinca, assim, com um paradoxo: fazer nascer uma figura espiritual a partir de uma matéria humilde, desgastada e perecível. O sagrado já não vem da perfeição, mas da transformação. O que parecia fragmentário ou abandonado adquire nova existência por meio da montagem.

«Arcanjo» pode então ser percebido como uma figura de resiliência e proteção: um guardião vulnerável, moldado pelas feridas que carrega. A obra sugere que a força não reside necessariamente na ausência de fragilidade, mas na capacidade de permanecer de pé apesar dela.

Noite Escura da Alma — Plástico, poliéster, tinta acrílica e areia misturados — Arnaud Caron (Artno)

Noite Escura da Alma

MateriaisPlástico, poliéster, tinta acrílica e areia misturados
Dimensões65 × 80 cm

No coração da escuridão, algo ainda subsiste: uma emoção, uma consciência, uma possibilidade de renascimento. É o espelho da alma humana atravessando seus períodos mais obscuros antes da união com o divino.

Reveladora de uma profunda crise interior, de um sentimento de vazio ou desolação, essa experiência corta o indivíduo de todo sentido e age como uma passagem rumo à transformação ou ao despertar.

Nyx — Plásticos, poliestireno, tinta acrílica e areia misturados — Arnaud Caron (Artno)

Nyx

MateriaisPlásticos, poliestireno, tinta acrílica e areia misturados
Dimensões80 × 65 cm

O título remete à deusa da Noite na mitologia grega, nascida do Caos primordial, conferindo de imediato a essa figura uma dimensão obscura, misteriosa e quase sagrada. O conjunto possui uma força quase totêmica: a de uma máscara primitiva recomposta a partir dos refugos da modernidade, onde o sagrado e o lixo se confundem.

Ao dar um rosto a Nyx, a obra não busca representar literalmente a deusa da Noite. Ela propõe, antes, uma encarnação contemporânea, frágil e imperfeita, constituída de fragmentos abandonados. A noite se torna, então, um território onde aquilo que foi rejeitado reencontra presença e identidade.

Autodestruição — Plásticos, poliestireno, areia, tinta acrílica — Arnaud Caron (Artno)

Autodestruição

MateriaisPlásticos, poliestireno, areia, tinta acrílica
Dimensões80 × 65 cm

«Autodestruição» representa um rosto humano bebendo, inteiramente constituído por resíduos e fragmentos de materiais abandonados. A garrafa levada à boca transforma um gesto vital e cotidiano em uma imagem inquietante: o homem parece absorver aquilo que ele mesmo produziu e descartou.

Ao poluir seu ambiente, o ser humano acaba, simbolicamente, ingerindo sua própria poluição. O que ele abandona na natureza volta para ele, sobretudo pela água e pela cadeia alimentar. O resíduo deixa então de ser exterior ao homem: penetra em seu corpo e se torna parte dele mesmo.

A obra coloca, assim, o homem diante de um paradoxo: ao contaminar aquilo que lhe permite viver, ele se torna o próprio artífice de sua destruição.

Prisioneiro — Tecido, linha de pesca — Arnaud Caron (Artno)

Prisioneiro

MateriaisTecido, linha de pesca
Dimensões50 × 50 × 120 cm
TipoMóbile

A obra encena uma forma orgânica presa em um emaranhado de redes, cordas e materiais plásticos. Ao mesmo tempo frágil e inquietante, essa figura parece desaparecer progressivamente sob os materiais que a aprisionam.

Os fios invadem o espaço até tornar incerta a fronteira entre o vivo e o resíduo. O que era destinado a capturar e a servir o homem se torna aqui uma armadilha que se fecha sobre a própria vida.

A obra pode assim ser compreendida como uma metáfora de nossa relação com o meio ambiente: os objetos que produzimos para dominar o mundo acabam por invadi-lo e por aprisionar o que é vivo.

O Homem Moderno — Plásticos, poliestireno — Arnaud Caron (Artno)

O Homem Moderno

MateriaisPlásticos, poliestireno
Dimensões120 × 80 cm

A figura híbrida, meio humana, meio objeto, interroga diretamente a condição do homem contemporâneo. Sua aparência, ao mesmo tempo primitiva, mecânica e quase robótica, cria um paradoxo: o homem moderno, apesar de seus avanços tecnológicos, parece aqui recomposto a partir dos vestígios de sua própria civilização.

Os objetos desviados de sua função perdem seu propósito original para formar um novo corpo, como se o indivíduo acabasse se confundindo com aquilo que fabrica, consome e abandona.

Ao mesmo tempo lúdica e inquietante, a obra levanta, por fim, uma questão sobre nossa identidade: o que resta do homem quando os objetos que ele cria, usa e abandona acabam se tornando seu próprio retrato?

Terceiro Olho — Plásticos — Arnaud Caron (Artno)

Terceiro Olho

MateriaisPlásticos
Dimensões22 × 32 cm

O terceiro olho remete, em muitas tradições espirituais, a uma percepção interior. É um convite a olhar com intuição e clarividência para acessar uma outra compreensão do real.

O terceiro olho se torna, então, o do artista: um olhar capaz de revelar uma outra realidade que o olhar cotidiano já não percebe.

Umbilical — Plásticos, areia — Arnaud Caron (Artno)

Umbilical

MateriaisPlásticos, areia
Dimensões100 × 140 cm

«Umbilical» interroga nossa relação de dependência com os sistemas artificiais que criamos. O ser humano contemporâneo parece ligado às máquinas por um vínculo vital, como a criança à mãe: aquilo que deveria inicialmente nos servir se torna, progressivamente, aquilo de que já não conseguimos nos desprender.

A obra mantém, assim, uma tensão entre autonomia e dependência, entre nascimento e confinamento. Coloca-se, então, uma questão essencial: ainda somos donos de nossas máquinas, ou nos tornamos dependentes dos sistemas que as alimentam?

Chinelo — Plásticos e linha de pesca — Arnaud Caron (Artno)

Chinelo

MateriaisPlásticos e linha de pesca
Dimensões80 × 80 cm
TipoMóbile

Ao tratar um popular chinelo brasileiro como uma relíquia arqueológica extraída do fundo do mar, o artista transforma um produto de consumo de massa em um artefato histórico. Ele desvia, assim, um símbolo familiar para conferir-lhe uma dimensão quase sagrada.

Brincando com o equilíbrio e o vazio, a obra se torna uma meditação sobre o vestígio humano e a passagem do tempo.

Natureza-morta — Plásticos, tinta acrílica e areia misturados — Arnaud Caron (Artno)

Natureza-morta

MateriaisPlásticos, tinta acrílica e areia misturados
Dimensões60 × 45 cm

«Natureza-morta» desvia um dos gêneros mais antigos da história da arte. Os objetos tradicionalmente representados são substituídos por galões de plástico deformados, recortados e encaixados uns nos outros. A expressão do título ganha, então, um sentido literal: o que se apresenta já não é uma representação da natureza, mas o resíduo artificial que nossa sociedade lhe abandona, um objeto sem vida, mas quase indestrutível.

A obra propõe, por fim, uma reflexão sobre nossa sociedade de consumo e sobre a marca duradoura que ela deixa para trás. A natureza-morta tradicional lembrava ao homem que toda vida está destinada a desaparecer. Aqui, o paradoxo se inverte: a natureza desaparece, enquanto nossos resíduos permanecem.

Perpétuo — Vidro, poliestireno, arame, tinta acrílica e areia misturados — Arnaud Caron (Artno)

Perpétuo

MateriaisVidro, poliestireno, arame, tinta acrílica e areia misturados
Dimensões80 × 80 cm

«Perpétuo» interroga a persistência dos resíduos produzidos pelo homem e seu confronto com o movimento incessante da natureza. O bloco de poliestireno, encontrado em uma praia, torna-se testemunha de uma poluição abandonada aos elementos.

Concebida como um móbile, a obra introduz uma dimensão essencial: o movimento. Suspenso e submetido às correntes de ar, o fragmento oscila continuamente. Esse movimento perpétuo evoca o do mar, das ondas e das marés que transportam sem cessar os resíduos antes de depositá-los nas margens.

Levado pelo movimento, mas condenado a persistir, esse fragmento se torna o símbolo de uma poluição que prossegue indefinidamente sua viagem.

A Gaiola — Arame, pena, areia, tinta acrílica — Arnaud Caron (Artno)

A Gaiola

MateriaisArame, pena, areia, tinta acrílica
Dimensões30 × 30 × 50 cm

A obra introduz uma tensão entre o aprisionamento e a liberdade. A gaiola, no entanto, não está fechada: parece permeável, vulnerável, como se o aprisionamento que ela simboliza fosse mais mental ou existencial do que material. Surge então uma ambiguidade: a gaiola protege tanto quanto aprisiona. Ela oferece segurança e subsistência, mas em troca da renúncia ao espaço exterior. A obra interroga, assim, as gaiolas que nós mesmos construímos: hábitos, medos, conforto, dependências ou restrições sociais.

Sua contemplação se torna um convite à meditação e, talvez, a escapar de nossa própria gaiola.

Naufrágio — Madeira e pregos — Arnaud Caron (Artno)

Naufrágio

MateriaisMadeira e pregos
Dimensões100 × 80 cm

Realizada a partir da madeira de um barco de pescador encalhado na praia, Naufrágio é um vestígio transformado em escultura. Seu casco de cores vivas, desgastadas pelo tempo, conserva as cicatrizes de sua história.

No topo, uma tábua perfurada por um círculo vazio se ergue como uma presença enigmática, um olho sem olhar ou uma abertura para o nada. Esse contraste entre a massa colorida e o vazio confere à obra sua singularidade: o barco parece ter perdido o mar, mas também sua função, sua tripulação e talvez até sua razão de ser.

Mais do que um objeto abandonado, ela se torna a metáfora de um naufrágio existencial. A madeira encalhada não reencontra sua vida de antes; ela inventa outra, na qual os vestígios do desaparecimento se tornam matéria de criação.